
Comunicação solitária
Walnize Carvalho
No domingo passado, estava trancada em meu quarto lendo o jornal, quando deparei com a manchete: “Candidatos prestam concurso dos Correios em busca de estabilidade”.Percebi que o sonho de um emprego público estável é a grande motivação da grande maioria dos candidatos inscritos. De repente... Toc!Toc! Toc! As batidas na porta interromperam minha leitura.
Uma das netas, que viera me visitar (mora em Macaé), comunicou que iria usar o computador. Tentei segurá-la um pouco e puxando conversa perguntei-lhe: - Não vai ao cinema, nem ao shopping? E ela: - Vou no MSN! E eu, demonstrando pouco conhecimento: - Vai bater papo com as amigas? – Sim, vó! – respondeu-me. E eu, demonstrando maior interesse no mundo virtual, recebi dela uma enxurrada de informações: MSN, Orkut, Facebook – as mais variadas formas de comunicação.
A adolescente saiu deixando a porta entreaberta, o que deu para que eu ouvisse o Plim do seu celular e, em seguida... Tec! Tec! Tec! sinalizando que acabara de receber um torpedo e estava retribuindo.
E retornando à internet, levou um bom tempo (talvez hora e meia) conectando “seus amigos em comum e comunidades”.
Como percebi que a menina não estava para bate papo (ao vivo e a cores) retomei à leitura do jornal. Sim - jornal impresso – minha preferência, embora passe, de vez em quando, os olhos na versão online.E li: “Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos revelou que boa parte de pessoas começam a navegar na internet móvel antes mesmo de se levantarem da cama pela manhã. Depois vão para o trabalho e continuam ligados nos aplicativos de seus celulares pois preferem relaxar e ouvir música. Mesmo quando voltam para casa, o grude com os smartphones continua. Pelo menos 26% dos usuários não conseguem largar do aparelho nem durante o jantar. Depois da refeição, no fim da noite, 34% mergulham nas redes sociais, e 20% continuam a postar nelas na cama, antes de dormir.”...
E não sei se foi por causa da matéria sobre Correios (que, de imediato, associei a correspondências; ou sobre a do uso sistemático da internet ou se pelo Outono (tida como estação melancólica) ... de repente, fui invadida pelos meus “ismos”: saudosismo e romantismo (e olha que já nutro até certa simpatia e amizade pelo meu computador).
Mas... lembrei-me do hábito salutar de escrever e responder cartas. A ida aos Correios. Selo. Cola. E depois... A espera do carteiro. O abrir apressado do envelope e o reconhecimento da autoria através da letra desenhada.
Recordei-me do relato dos mais saudosistas do que eu, sobre cartas em papel cor de rosa ou em folhas de seda. Muitas com leve fragrância de perfume, algumas com pétalas de rosa e até as que traziam marcas indeléveis de batom (vermelho carmim) impregnadas de paixão. Todo um ritual de comunhão e sutileza.
Anoiteceu.
Pela fresta da porta do meu quarto, a luz azulada da tela do computador refletia sobre o rosto da menina.
Eu – a meu canto – encerrei o domingo assistindo em DVD “O Carteiro e o Poeta”.
Um comentário:
Maravilhosa e realista!
Postar um comentário